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(Na infância) era tudo mais fácil.


Não era nada, mas já era tudo.

Era aquilo que fui designada a ser por vontade própria.

Era, na irracionalidade que me definia, ingenuamente feliz por não saber a razão das minhas escolhas.

Seguia os caminhos que me chamavam e nada interferia no estado de curiosidade que me preenchia a alma. Ia e pronto.

Não pensava nas consequências, nem na possível maldade de quem me esperava. Nem sequer sabia que existia maldade no homem.

Era tudo mais fácil, mais interessante aos meus olhos, como se todo o planeta brilhasse a cada passo que eu dava.

E pouco era o que me aborrecia, apenas o peixe em vez da carne, ou escola em vez do parque.

Era de hábitos fáceis, mas nunca regulares. Porque todos os dias queria algo novo. Todos os dias procurava a descoberta.

Às vezes também caía. Batia com a cabeça e chorava. Mas depois levantava-me e ria à gargalhada se voltasse a cair. Porque as quedas eram grandes, mas contrariamente ao presente, nunca me demoviam.

Não sentia medo. Queria sempre chegar onde ainda não tinha chegado. E se o cansaço viesse, dormia horas a fio. Sem insónias descabidas ou pesadelos com o papão.

A minha mãe abraçava-me e o meu pai tinha um escudo. Estava segura. Decerto que sim.

Tinha a absoluta certeza de que queria ser médica, porque era bom salvar vidas, era bom ajudar pessoas. Inevitavelmente era sensível à dor dos outros e chorava sempre que via alguém chorar.

Era de sorriso fácil e de olhinhos enganadores. E os afetos? Esses eram o rebuçado que mais gostava.

Queria ter uma coroa, mas esfolava os joelhos.

Queria saber ler, mas não sabia o abecedário.

Queria conduzir, mas não chegava aos pedais.

Queria ser crescida, mas diziam-me que não tivesse pressa.

E só hoje percebo porquê.

Por Inês.

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